O ARTICULADOR DA RESISTÊNCIA

Frei e padre Carmelita, Gilvander Moreira tem como bandeira a defesa dos direitos humanos – em sua mais recente luta, denuncia o uso indiscriminado de agrotóxicos no interior de Minas Gerais.

[perfil publicado na Revista Liberto, número 3, de 2013]

por Jessica Soares

Gilvander Luís Moreira nasceu em uma família sem terra, no sítio de Pindaíba, localizado em Rio Paranaíba, pequeno município do centro-sul mineiro, em 1963. Quatro anos depois, já ajudava o pai no trabalho na roça. A vida pesada com enxada na mão só deixou que começasse a estudar aos nove anos de idade. Mas antes de aprender em sala de aula sobre a lenda narrada pelos índios aos espanhóis, já sabia sobre a promessa de El Dorado: o ouro que buscavam eram as terras férteis, e o Novo Mundo estava ali ao lado, no município de Unaí. A família se mudou para lá em busca de uma vida melhor, mas o que encontrou foram mais dificuldades. “A gente trabalhava, trabalhava e trabalhava, e no final da safra o patrão levava metade do milho, do arroz e do feijão. E a outra metade, que deveria ser nossa, também era levada quase inteira, porque a gente tinha contraído uma dívida com o fazendeiro na época do plantio. Tudo que eu pensava era ‘isso não é justo, isso não é justo. Deus não quer isso’”, relembra.

Da terra em que plantavam o sustento, não nasceu uma resposta para a injustiça vivida por tantas famílias que sentem na pele a crueldade do latifúndio, mas fez brotar em Gilvander o desejo de mudanças. Olhando para o passado, não tem dúvidas de que sua vocação para entrar no seminário e a vontade de estudar Filosofia e Teologia estava intimamente ligada à vontade de lutar por justiça. Gilvander acredita que o sentido da vida está em contribuir para que as pessoas sejam mais felizes. E não vê outra alternativa: isso só será possível se todos tiverem seus direitos humanos respeitados. Por isso, luta. E sua luta não é uma só.

Pela luta unificada

Membro do Conselho Estadual de Direitos Humanos de Minas Gerais e assessor da Comissão Pastoral da Terra, acompanha os movimentos do campo e principalmente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Na cidade, participa da luta daqueles que não têm moradia junto das Brigadas Populares e das ocupações urbanas. Reivindica a reforma agrária, a reforma urbana, a reforma social. Suas bandeiras são muitas, como acredita que deve ser.

Cita um exemplo para deixar clara sua posição: em 2006, participou de uma manifestação na porta da Cemig, uma luta concreta do Sindieletro (Sindicato Intermunicipal dos Trabalhadores na Indústria Energética de Minas Gerais) que estava ali reivindicando seus direitos trabalhistas e melhores condições de vida. Junto deles, estava também uma representação grande do MST, do Movimento dos Atingidos Por Barragens e do Sindágua (Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Purificação e Distribuição de Água e em Serviços de Esgotos do Estado de Minas Gerais). “Assim a luta toma mais unidade. E aí vai se criando aquele slogan, ‘mexeu com ele, mexeu comigo’. Mexeu com as ocupações, mexeu comigo. Somos Todos Eliana Silva, Somos Todos Dandara, Somos Todos Sem Terra, Somos Todos Negros, Somos Todos Índios, Somos Todos Homossexuais. Os direitos humanos devem ser respeitados em sua integridade”, argumenta.

“Nós vivemos em um status quo profundamente injusto. Então a única forma de tentar construir uma outra sociedade, mais justa e solidária, é animando a desobediência civil, política, religiosa”, afirma. Declarando-se discípulo de Gandhi, Martin Luther King, Che Guevara e Jesus de Nazaré, Gilvander defende que fazer filantropia ou ajudar as pessoas na perspectiva da assistência social não é o bastante. “É preciso solidariedade, mas ela deve estar intimamente ligada à luta por justiça. Precisamos fazer denúncias, dar nomes aos bois, sermos concretos para que sejamos contundentes. Lutar por justiça significa incomodar quem está acomodado”, diz. E este incômodo certamente existe.

De volta à Unaí

A primeira ameaça aconteceu há cerca de 15 anos, se não lhe falha a memória. Depois disso, Gilvander foi ameaçado de morte (“e de ressurreição”, como gosta de dizer) numerosas vezes. O fato, que provocou grande medo inicialmente, passou a fazer parte de sua luta diária. “Primeiro você treme. Depois esse sentimento passa, porque, por um lado, também dá uma alegria – a gente percebe que a nossa atuação não está sendo em vão”, afirma. No último ano, no entanto, as ligações anônimas foram acompanhadas por uma ameaça permitida pela Justiça.

Em janeiro de 2012, Frei Gilvander publicou em seu canal no site de vídeos YouTube um depoimento de Edivânia, funcionária da Escola Municipal de Arinos, localizada no noroeste de Minas Gerais. “Quando as serventes estavam cozinhando o feijão, a gente percebeu uma catinga muito grande. Era o cheiro do veneno [agrotóxico]. Tivemos que jogar mais de trinta quilos de feijão fora, porque não tinha condições de ser consumido”, ela conta no vídeo. “E esse feijão tem marca?”, pergunta no vídeo o Frei, colocando em prática sua política de dar nome aos bois. “Feijão Unaí”, responde Edivânia. Para conseguir servir o alimento como merenda aos alunos, a solução encontrada é deixar de molho o feijão por um dia, “porque se não a catinga é muito forte”.

O vídeo, intitulado O Feijão Unaí está envenenado?, tinha tido menos de 600 acessos antes do dia 23 de junho de 2012, data em que empresa Torrefação e Moagem Café Unaí Ltda, proprietária do Feijão Unaí, processou judicialmente Gilvander Moreira por danos morais e os diretores do site YouTube (que é propriedade da empresa Google), por divulgação do material. O juiz do Juizado Especial Cível da Comarca de Unaí, responsável pelo processo, ordenou prisão em flagrante dos representantes legais do Google/Youtube caso não fosse retirado o vídeo da internet dentro de cinco dias, e a prisão também de Gilvander, sob o argumento de crime de desobediência. O prazo venceu dia 29 de outubro último e o vídeo continua no ar, agora com quase 10.000 acessos.

“Eu fui criado no município de Unaí e nós, Freis Carmelitas, temos paróquia no município. O que a gente percebe é que, principalmente nos últimos dez anos, houve um crescimento exorbitante no número de pessoas com câncer[1]. Ao mesmo tempo, cresce o agronegócio e o uso de mão de obra análoga a de escravidão. Foi por isso que, em 28 de janeiro de 2004, quatro fiscais foram mortos[2]”, afirma Gilvander. “Cresce o uso de agrotóxicos e o número de pessoas com câncer. Não precisa de muita pesquisa científica. Não para perceber que tem uma relação intrínseca”, completa. Mas não faltam pesquisas que comprovam os efeitos nocivos do uso de agrotóxico (ver: “Contra os agrotóxicos e pela vida”, ao lado) e apoiam a denúncia feita pelo Frei, que teve seu direito reiterado também pelos advogados do Google. Em audiência pública, a empresa apresentou seis páginas de defesa e recusou-se a retirar o vídeo do site por entender não haver ali nenhuma irregularidade – trata-se de uma reportagem amadora, e os advogados destacaram que a empresa rege-se pelo direito à informação e de livre expressão.

Paralelamente, quase 300 pessoas, movimentos e entidades já assinaram o Manifesto Contra o Uso Indiscriminado de Agrotóxicos e Contra a Criminalização de Frei Gilvander[3]. A luta também ganhou força: o exagero de agrotóxicos no Feijão Unaí foi discutido em 29 de novembro na reunião do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, que contou com a presença do Ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho. Frei Gilvander foi também convidado para conduzir uma palestra sobre Direitos Humanos e Agrotóxicos no “Seminário de Direitos Humanos do Semiárido: Construindo uma Cultura de Direito”, realizado pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) entre os dias 4 e 6 de dezembro em Mossoró, no Rio Grande do Norte. Segue desempenhando o papel que julga mais importante: o de articulador.

[1]Segundo os dados apresentados na Ausculta Pública que foi realizada em Unaí pela Comissão Parlamentar, o município já registra cerca de 1.260 casos de câncer/ano a cada 100.000 habitantes. A média mundial não ultrapassa 400 casos/ano a cada 100.000 pessoas

[2]No Massacre de Unaí, acontecido no dia 28 de janeiro de 2004, quatro fiscais da Delegacia Regional do Ministério do Trabalho foram mortos por cinco jagunços em uma emboscada perto da Fazendo Bocaina. Nove anos após o episódio, o assassinato de Erastótenes de Almeida Gonçalves, João Batista Soares Lage e Nelson José da Silva, Auditores Fiscais do Trabalho, e de Ailton Pereira de Oliveira, motorista oficial, continua impune.

[3]Disponível em http://www.gilvander.org.br/artigos/220-questao-dos-agrotoxicos-em-unai-informacoes-atuais

Jessica Soares é jornalista e foi co-editora da Revista Liberto, número 3

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